Notícia - Carioca volta à área residencial com imóveis para a baixa renda
08.03.2010
A Carioca Christiani Nielsen Engenharia, uma das grandes empreiteiras do setor de obras públicas, está sendo atraída para voltar ao mercado imobiliário residencial, deixado no final da década de 1990, pelo programa oficial de construção de moradias para famílias de baixa renda (de três a dez salários mínimos), batizado de Minha Casa, Minha Vida. Ricardo Pernanbuco Backheuser, 69, líder da empresa de controle familiar, disse que já está "vendo gente" para retomar o negócio imobiliário, e que espera até o meio deste ano estruturar a presença da Carioca, inicialmente, no mercado do Rio de janeiro e, provavelmente, no de São Paulo.
Backheuser, engenheiro civil, amante da música e morador de Copacabana, substituiu seu pai e fundador da Carioca (1947), João Carlos Backheuser, no comando da empresa na década de 1960. Hoje, já está completada a transferência formal para a terceira geração familiar. Ocupa o cargo de presidente do Conselho de Consultivo, simbólico apenas na aparência. Sua rotina diária, agora como uma espécie de eminência parda de luxo, ainda é na sede da empresa, no bairro histórico de São Cristóvão (zona norte). Está praticamente dentro do verdejante parque da Quinta da Boa Vista que abriga o Paço Imperial, antiga residência da família imperial brasileira (hoje Museu Nacional). Como toda eminência parda, prefere ficar à sombra. Nada de fotos.
Para ele, a volta ao mercado habitacional, com a marca Carioca Empreendimentos Imobiliários, impõe-se pela disponibilidade de crédito que está impulsionando o segmento. Embora não haja preconceito em relação a nenhuma faixa do mercado imobiliário, ele disse que o empenho do governo no projeto Minha Casa, Minha Vida, irrigado pelo crédito da Caixa Econômica Federal (CEF), faz do segmento o mais atraente neste momento. Backheuser vê outra vantagem em investir em moradias para as camadas sociais mais pobres: a disponibilidade de terrenos a preços competitivos. Ressalta que no segmento de imóveis de alto valor, trava-se hoje uma verdadeira guerra, por exemplo, na Barra da Tijuca (zona oeste), praticamente a única com áreas ainda disponíveis no Rio de Janeiro.
A volta ao mercado imobiliário não significa, segundo o empresário, que a Carioca vai colocar em segundo plano sua maior aposta dos últimos anos, os investimentos na privatização do saneamento básico. Por intermédio da marca Águas do Brasil, a construtora ganhou a concessão da maior parte dos municípios que privatizaram os serviços de água e esgoto no Estado do Rio de Janeiro, incluindo a antiga capital, Niterói, as cidades serranas de Petrópolis e Nova Friburgo, Resende, na rota Rio-São Paulo, e Campos dos Goytacazes, ao norte, maior cidade do Estado fora da região metropolitana da capital.
Para Backheuser, apesar de o imbróglio jurídico entre municípios e Estados continuar dificultando a evolução dos investimentos privados em saneamento, o segmento permanece sendo uma excelente perspectiva. Ele avalia que os municípios que fizeram a opção estão recebendo melhores serviços com menores tarifas para as populações e que os exemplos acabarão por abrir caminho para a entrada de outras cidades. A empresa atua também em concessões rodoviárias, sendo uma das sócias da Concessionária Rio-Teresópolis (CRT).
Mas a história da Carioca, nascida com a simples ambição de pavimentar ruas dos subúrbios do Rio, segue comandada pelo setor de obras públicas que, com a recente reativação, voltaram a engordar a carteira da empresa. Outro cacoete de empresa familiar: os resultados financeiros são guardados em cofre forte. A construtura está presente em três dos 14 lotes da Transposição do São Francisco, na construção do gasoduto Coari-Urucu-Manaus e na construção do terminal portuário da Cia. Siderúrgica do Atlântico (CSA), entre outras obras.
Nos anos 80, chegou a ser vista como "a construtora do Brizola", no período (1983-1986) em que o gaúcho Leonel Brizola (1922-2004) governou pela primeira vez o Estado do Rio de Janeiro. Backheuser disse que nunca houve ligação da empresa com o líder pedetista. Segundo ele, a história nasceu na época da construção do Sambódromo do Rio (inaugurado em 1984). O edital da obra não dava espaço para as construtoras do Rio, de menor porte, disputarem com as grandes daquela época, como a Mendes Júnior e a Norberto Odebrecht.
Brizola teria então pressionado para que as vencedoras cedessem um trecho para as construtoras locais, daí a participação da Carioca na construção da Praça da Apoteose, o trecho final da passarela do samba do Rio que, segundo ele, do ponto de vista da engenharia, foi a área de construção mais elaborada com imensa praça e um monumento projetados por Oscar Niemeyer. Na sequência, a empreiteira tornou-se a maior construtura dos Centros Integrados de Educação Pública (CIEPs), a marca registrada da primeira gestão brizolista no Rio, tendo feito, segundo Backheuser, cerca de 120 deles. Em 1988, a Carioca incorporou a dinamarquesa Christiani Nielsen, entrando de vez para o rol das grandes construtoras.
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